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A coincidência da inauguração da nova Biblioteca de Alexandria com o vigésimo aniversário da morte de Adriano Correia de Oliveira pode fazer-nos recordar que o peso das tiranias é sempre inferior ao da liberdade.
Passaram ontem vinte anos sobre a morte de Adriano Correia de Oliveira, data assinalada entre nós por iniciativas discretas: um jantar-recital na Casa do Alentejo, anteontem, uma exposição e outro recital no próximo sábado à noite, em Sintra, no Centro Cultural Olga Cadaval, com a presença de nomes que a ele continuam ligados pela música, pela poesia e pela amizade, como Manuel Alegre, Fausto ou Manuel Freire. Aplicar a palavra saudosismo será despropositado para notar a ausência de alguém que, enquanto vivo, sempre primou pela presença notória, pelo verbo vivo, pela prática de uma fraternidade que nele era um vício congênito.
"Sempre com um sorriso a querer ajudar os outros, e isso é o Adriano", disse Arnaldo Trindade, editor discográfico dele e de José Afonso, e a frase ficou registada por Manuel Reis no livro fotobiográfico "Adriano Presente!", em 1999. Mas Adriano era, e é ainda, muito mais do que isso. Voz de poetas (Alegre, Gedeão, Rosalía, Aleixo, Fiama, Raul de Carvalho, José Afonso, Manuel da Fonseca, Luis Andrade) sem que das mãos lhe tenha saído um único verso, despertou na canção portuguesa nos anos 60 um sentimento de pureza, de renascimento, que na década seguinte haveria de desembocar num caudal bem mais vigoroso e indomável. Não foi, ao contrário do que hoje possa pensar-se por comodismo histórico, um movimento apenas político ou apenas estético, mas um passo fundador onde estética, política, humanismo e sentido de cidadania se fundiram numa só corrente regeneradora. Do que desses tempos ficou é costume lembrar apenas a militância antifascista, a solidariedade com os movimentos populares, a resistência política e cultural à ditadura. Mas o que Adriano Correia de Oliveira e muitos dos seus pares personificaram foi um momento radical de mudança: de hábitos, de sons, de vida. Os que a ele assistiram terão percebido a reviravolta que se adivinhava. Adriano disse em 1970, ao então vespertino "A Capital", tratar-se de "uma tentativa de experiência musical e literária de utilização da linguagem das palavras (...), base de onde poderá agora construir-se uma música ligeira portuguesa pelo menos séria (...) com uma certa correspondência aos motivos da nossa vida" (in "Adriano Presente!"). O futuro deu-lhe razão. Ontem, as rádios voltaram a pôr no ar as suas canções, para cumprir a efeméride. A trova do vento que passa voltou a passar outra vez, com o risco, mais do que previsível, que só volte a passar daqui a cinco ou dez anos. Mas o facto de este vegésimo aniversário da morte de Adriano coincidir com o renascimento dessa fênix moderna que é a Biblioteca de Alexandria (reduzida a pó, há séculos, pela eterna cobiça destrutiva dos homens) deve fazer-nos recordar que o peso das tiranias é sempre inferior ao da liberdade. Lá longe, a nova biblioteca prova-º
Aqui, Adriano também.
Nuno Pacheco.
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