Fernando Assis Pacheco
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«espera por mim à mesa do céu» A última vez que vi o Adriano foi em Lisboa, no funeral de Carlos de Oliveira: estava adoentado, mas com esperanças de tratar-se e voltar a fazer coisas giras na música. A primeira vez que o vi foi em Coimbra, em casa do Manuel Alegre, a afinar a voz para cantar com o António Portugal à guitarra. Vendia saúde, era um calmeirão do Norte com umas rosetas na cara que me faziam imensa inveja.. Ria alto. Eu é que andava mosca: entrara para a tropa e não ligava grande coisa às novas aventuras musicais da minha cidade. Aliás e, falando verdade, tanto se me dava. Não tinha fé nenhuma naquela dita renovação. O fado o Coimbra era uma chatice incomensurável. Para pai assim, o filho sairia deficiente. Pelos vistos enganei-me. Ia sabendo umas noticias do mundo escolar em Estremoz, no quartel, através das cartas (de amigos, da minha mulher, , que então ainda era só namorada). Um ou outro fim-de-semana viajava até Coimbra, comprava a Via latina, contavam-me histórias, ou pura e simplesmente batia à porta da D. Manuela (Alegre, mãe do Manuel, hoje sogra do Portugal) a refrescar a cabeça. A D. Manuela gostava do Adriano, mas é certo que entretanto o tinha adoptado na qualidade de visita, comensal cantor no quarto do filho, tudo junto e com grande cresta na cozinha, porque o nortenho dava ao dente como um hamster – continuamente. Serve isto para explicar que a renovação musical do burgo, com as suas implicações na música urbana do país, passou um bocado de largo nas minhas preocupações. Somente ao ouvir o novo Zeca Afonso é que me arrepiei: algo mudava. Depois o Adriano confirmou que sim. Um dia, um dia de cocktail discográfico num hall dum teatro de Lisboa, o Adriano vai e diz-me: «Musiquei uma versalhada tua!» «Está bem, e depois?» «Bom, tive que emendar uns versos ...» Antes de nos chatearmos – hoje sorrio apenas – assentamos em que eu ouviria em primeira audição, mas não houve tempo, não houve hipótese, isto dos discos é um mundo corredio e, recebi o crime já em obra de vinil, acabado de prensar. Anda por aí nos sótãos das emissoras. A versalhada fala duns rapazes que a polícia volta e meia metia dentro – ou, em alternativa, que a tropa acondicionava em Penamancor para não chatear o indígena. Versalhada adolescente, muito mal feita benza-a Deus. Mas foi o encontro de dois tipos truculentos, faladores, ingénuos, bons comedores de petiscos e, isso é que ninguém nos tira. O Adriano, o coração de oiro, foi com certeza para o céu, onde espera por mim à mesa. "Saudades de Adriano o tolerante – por Fernando Assis Pacheco em "o Jornal" em 19/11/1982 "isqueiros acesos em duas das maiores salas de Lisboa quiseram dizer, com quatro dias de intervalo, que o morto recente Adriano Correia de Oliveira deixou profundas saudades. Saudades do cantor e compositor. Saudades do homem tolerante, afinal «tão agredido» enquanto vivo. Saudades do coração indefeso." "Imagine-se o Coliseu dos Recreios, ou a Aula Magna, só com uns spot-lights apontados ao centro do palco, sublinhando-se nele a ausência do homem Adriano. E de repente, às dezenas, os isqueiros acendem-se, enquanto um colega sobrevivo canta a Trova do vento que passa (de Manuel Alegre – Adriano Correia de Oliveira). A emoção não se descreve. Foi o que sucedeu nas noites de 12, sexta feira da semana passada, no Coliseu, durante a festa de entrega dos prémios do semanário Em Marcha aos «melhores da música portuguesa» e, de quarta feira última, 16, na Aula Magna da Reitoria da Universidade Clássica, aqui mais formalmente no decorrer de homenagem póstuma promovida pela A.E. da Faculdade de Letras de Lisboa. A chama dos isqueiros valia por todas as palavras de circunstância. Em ambas as noites as noites estavam as salas arquicheias, numa prova de que pelo menos em Lisboa há público bastante para a música portuguesa ao vivo. Que entretanto os empresários nos «consuelen, baby» com a goiabada de importação, ou se multipliquem em apresentações dos tataranetos do Rock, é a outra metade do equívoco. " "De duas maneiras" A evocação de Adriano no Coliseu foi feita por Vitorino, Janita e o Bando da Planície muito simplesmente com versos e música, sem se avisar ninguém. Na Aula Magna o o objectivo era outro, de onde as palavras. «Um alto e belo camarada», diria Manuel da Fonseca sustendo mal as lágrimas. «Incomparável bondade» a sua, lembraria Maria Alzira Seixo, num texto lido por José Mário Branco. «Muitas vezes em Portugal é preciso morrer para depois ser reconhecido, ou melhor ainda, é preciso morrer para se mostrar que se está vivo», lançaria Manuel Alegre antes da leitura de quatro poemas seus, três dos quais Adriano musicou e um quarto para que já não teve tempo de criar o suporte melódico. E no segundo caso, porque de homenagem se tratava, a maioria dos cantores e instrumentistas participantes lembrou exaustivamente o alegre triste rapaz do Norte que um dia chegou a Coimbra com uma viola eléctrica debaixo do braço para descobrir outras formas musicais. Mas José Mário Branco apostaria em coisa diversa: cantar música sua sobre poema de Natália Correia, ouvindo talvez das mais demoradas palmas da noite. Dizer e calar O coração indefeso de Adriano Correia de Oliveira magoava-se amiúde. Ele que foi de facto, conforme assevera José Lopes de Almeida, vocacionado «como poucos para a tolerância e o diálogo», não percebia não ser gostado. Nem «herói», nem «santo», apenas «um homem modesto», com o apetite da doação, expulsaram-no de uma cooperativa de espectáculos por motivo que sempre achou fútil. Vale a pena contar que então gritou? Gritou, que eu sei (e há uma gravação probatória). Gritou – apesar da intolerância de raiz – que na cooperativa se instalara «o nepotismo mais absoluto» e «a mais ampla leviandade cultural». Magoado, desfeito, indefeso. Quando a família se lhe escapou entre os dedos, somando um a outro golpe, preparou-se para morrer. Mas por favor não o transformem em «Adriano, o morto do ano»! Não merecia. Não gostaria nem por «tarefa». A verdade é que «cantou tantas vezes só para meia dúzia de pessoas» (Lopes de Almeida), gastando a voz ao frio. "Uma noite destas vou acender o meu isqueiro na cave, sozinho." Fernando Assis Pacheco. |
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